sábado, 28 de julho de 2012

Poema inédito de José Régio - Canção de Portalegre


(fotografia da minha autoria - Sé e Castelo ao pôr-do-sol)

"De Portalegre cantando,
Meu canto é doce e é amargo:
Já sinto os olhos turvando,
Já sinto o peito mais largo ...

Ai torres da velha Sé,
Ai muros do burgo estreito!
Sempre vos rezo, com fé.
Se me levanto ou me deito 

Por onde quer que eu andar,
Vá eu lá por onde for,
Comigo te hei-de levar, 
Contigo me hei-de ficar,
Minha terra, - meu amor ... 

O céu das tardes compridas
Parece que vem baixando;
E se as torres são mãos erguidas
Que quase lhe estão chegando!

Ao longe se perde o olhar
Nas névoas dos horizontes ...
E a terra parece o mar,
Parecem ondas os montes.

Por onde quer que eu andar,
Vá eu lá por onde for, 
Comigo te hei-de levar,
Contigo me hei-de ficar,
Minha terra, - meu amor ...

Tem cada ruela estreita
Casas pobres, e opulentas
Meu gosto nenhuma enjeita:
São todas minhas parentas ...

Olhei da Serra a cidade,
Tão branca, estreita e comprida!
Fez-me alegria e saudade,
- Assim de noiva vestida ...

Por onde quer que eu andar,
Vá eu lá por onde for,
Comigo te hei-de levar, 
Contigo me hei-de ficar,
Minha terra, -meu amor ..."

in "Rabeca" - 21 de Novembro de 1952

(Portalegre vista da Serra - fotografia da minha autoria


Espero que gostem da partilha deste poema. O facto de ter sido publicado em jornais e não em livros faz com que não seja muito conhecido e, a meu ver, é demasiado lindo para que isso se possa permitir. As fotografias foram tiradas por mim e servem para ilustrar (ou pelo menos tentar) aquilo que o poeta fala.

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