domingo, 7 de outubro de 2012

Como eu não possuo

"Como eu desejo a que ali vai na rua,
tão ágil, tão agreste, tão de amor…
Como eu quisera emaranhá-la nua,
bebê-la em espasmos de harmonia e cor!…

Desejo errado… Se eu a tivera um dia,
toda sem véus, a carne estilizada
sob o meu corpo arfando transbordada,
nem mesmo assim – ó ânsia! – eu a teria…

Eu vibraria só agonizante
sobre o seu corpo de êxtases dourados,
se fosse aqueles seios transtornados,
se fosse aquele sexo aglutinante…

De embate ao meu amor todo me ruo,
e vejo-me em destroço até vencendo:
é que eu teria só, sentindo e sendo
aquilo que estrebucho e não possuo."

 Mário de Sá-Carneiro

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