domingo, 19 de agosto de 2012

Precisa-se de matéria prima para construir um país

"A crença geral anterior era de que Santana Lopes não servia, bem como Cavaco, Durão e Guterres. Agora dizemos que Sócrates não serve. E o que vier depois de Sócrates também não servirá para nada. Por isso começo a suspeitar que o problema não está no trapalhão que foi Santana Lopes ou na farsa que é o Sócrates.
O problema está em nós. Nós como povo. Nós como matéria prima de um país.
Porque pertenço a um país onde a ESPERTEZA é a moeda sempre valorizada, tanto ou mais do que o euro. Um país onde ficar rico da noite para o dia é uma virtude mais apreciada do que formar uma família baseada em valores e respeito aos demais. Pertenço a um país onde, lamentavelmente, os jornais jamais poderão ser vendidos como em outros países, isto é, pondo umas caixas nos passeios onde se paga por um só jornal E SE TIRA UM SÓ JORNAL, DEIXANDO-SE OS DEMAIS ONDE ESTÃO.
Pertenço ao país onde as EMPRESAS PRIVADAS são fornecedoras particulares dos seus empregados pouco honestos, que levam para casa, como se fosse correcto, folhas de papel, lápis, canetas, clips e tudo o que possa ser útil para os trabalhos de escola dos filhos… e para eles mesmos.
Pertenço a um país onde as pessoas se sentem espertas porque conseguiram comprar um descodificador falso da TV Cabo, onde se frauda a declaração de IRS para não pagar ou pagar menos impostos.
Pertenço a um país:
-Onde a falta de pontualidade é um hábito;
-Onde os directores das empresas não valorizam o capital humano.
-Onde há pouco interesse pela ecologia, onde as pessoas atiram lixo nas ruas e, depois, reclamam do governo por não limpar os esgotos.
-Onde pessoas se queixam que a luz e a água são serviços caros.
-Onde não existe a cultura pela leitura (onde os nossos jovens dizem que é ‘muito chato ter que ler’) e não há consciência nem memória política, histórica nem económica.
-Onde os nossos políticos trabalham dois dias por semana para aprovar projectos e leis que só servem para caçar os pobres, arreliar a classe média e beneficiar alguns.
Pertenço a um país onde as cartas de condução e as declarações médicas podem ser ‘compradas’, sem se fazer qualquer exame.
-Um país onde uma pessoa de idade avançada, ou uma mulher com uma criança nos braços, ou um inválido, fica em pé no autocarro, enquanto a pessoa que está sentada finge que dorme para não lhe dar o lugar.
-Um país no qual a prioridade de passagem é para o carro e não para o peão.
-Um país onde fazemos muitas coisas erradas, mas estamos sempre a criticar os nossos governantes.
Quanto mais analiso os defeitos de Santana Lopes e de Sócrates, melhor me sinto como pessoa, apesar de que ainda ontem corrompi um guarda de trânsito para não ser multado.
Quanto mais digo o quanto o Cavaco é culpado, melhor sou eu como português, apesar de que ainda hoje pela manhã explorei um cliente que confiava em mim, o que me ajudou a pagar algumas dívidas.
Não. Não. Não. Já basta.
Como ‘matéria prima’ de um país, temos muitas coisas boas, mas falta muito para sermos os homens e as mulheres que o nosso país precisa.
Esses defeitos, essa ‘CHICO-ESPERTERTICE PORTUGUESA’ congénita, essa desonestidade em pequena escala, que depois cresce e evolui até se converter em casos escandalosos na política, essa falta de qualidade humana, mais do que Santana, Guterres, Cavaco ou Sócrates,
é que é real e honestamente má, porque todos eles são portugueses como nós, ELEITOS POR NÓS. Nascidos aqui, não noutra parte…
Fico triste.
Porque, ainda que Sócrates se fosse embora hoje, o próximo que o suceder terá que continuar a trabalhar com a mesma matéria prima defeituosa que, como povo, somos nós mesmos. E não poderá fazer nada…
Não tenho nenhuma garantia de que alguém possa fazer melhor, mas enquanto alguém não sinalizar um caminho destinado a erradicar primeiro os vícios que temos como povo, ninguém servirá.
Nem serviu Santana, nem serviu Guterres, não serviu Cavaco, nem serve Sócrates e nem servirá o que vier.
Qual é a alternativa ?
Precisamos de mais um ditador, para que nos faça cumprir a lei com a força e por meio do terror ?
Aqui faz falta outra coisa. E enquanto essa ‘outra coisa’ não comece a surgir de baixo para cima, ou de cima para baixo, ou do centro para os lados, ou como queiram, seguiremos igualmente condenados, igualmente estancados… igualmente abusados !
É muito bom ser português. Mas quando essa portugalidade autóctone começaa ser um empecilho às nossas possibilidades de desenvolvimento como Nação, então tudo muda…
Não esperemos acender uma vela a todos os santos, a ver se nos mandam um messias.
Nós temos que mudar. Um novo governante com os mesmos portugueses nada poderá fazer.
Está muito claro… Somos nós que temos que mudar.
Sim, creio que isto encaixa muito bem em tudo o que anda a acontecer-nos:
Desculpamos a mediocridade de programas de televisão nefastos e, francamente, somos tolerantes com o fracasso.
É a indústria da desculpa e da estupidez.
Agora, depois desta mensagem, francamente, decidi procurar o responsável, não para o castigar, mas para lhe exigir (sim, exigir) que melhore o seu comportamento e que não se faça de mouco, de desentendido.
Sim, decidi procurar o responsável e ESTOU SEGURO DE QUE O ENCONTRAREI
QUANDO ME OLHAR NO ESPELHO.
AÍ ESTÁ. NÃO PRECISO PROCURÁ-LO NOUTRO LADO.
E você, o que pensa ?… MEDITE !"


Eduardo Prado Coelho, in Público, 10/11/2005 (encontrei este texto pela Internet e achei bastante interessante partilhá-lo, no entanto, não tenho a certeza do autor, pois já encontrei vários sites que lhe atribuem o artigo e outros que não. Quem souber, por favor, comente)

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Facebook


Carta ao professor Reis Pereira



Numa exposição existente na Biblioteca Municipal de Portalegre, chamada "José Régio: seus papéis e lugares", em Janeiro deste ano, pude ver alguns dos papéis que testemunharam o seu tempo de escola, publicações em jornais de textos seus e até mesmo cartas que ele mandou ou que lhe foram endereçadas. Aquela que me chamou mais a atenção e que ainda hoje me recordo, foi uma carta escrita por uma aluna dele (não me recordo se era aluna ou simplesmente alguém que queria conhecê-lo) em que no fundo demonstrava por ele uma enorme admiração e um grande gosto por tudo o que o escritor escreveu. Foi uma carta tocante porque de facto quem a escreveu mostrou uma enorme admiração pelo o escritor e embora já se tivessem visto (ou conhecido) ela nunca lhe chegou a dizê-lo pessoalmente, só ganhou coragem para lhe mandar a carta.
Eu sou da opinião que devemos dizer às pessoas que as admiramos quando o sentimos e acho muito bom poder aprender com quem é mais velho e sabe mais que nós. Por isso só acho que ela fez o que devia ter feito, mas como já sabemos que só vivemos uma vez e só temos apenas uma oportunidade para as coisas, devemos de aproveitar todas as que nos surgem e assim evitamos dizer às pessoas o que sentimos por carta ou Internet...

Não me peçam razões



"Não me peçam razões, que não as tenho,
Ou darei quantas queiram: bem sabemos
Que razões são palavras, todas nascem
Da mansa hipocrisia que aprendemos.


Não me peçam razões por que se entenda
A força de maré que me enche o peito,
Este estar mal no mundo e nesta lei:
Não fiz a lei e o mundo não aceito.


Não me peçam razões, ou que as desculpe,
Deste modo de amar e destruir:
Quando a noite é de mais é que amanhece
A cor de primavera que há-de vir."

José Saramago, in Os poemas Possíveis

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Música do dia - Plan B


Lost my way - Plan B

São poucas as bandas ou artistas que gosto, mas esta também é uma delas.
Qual a diferença entre uma mesma frase dita, por exemplo, por Camões, há séculos atrás e por um escritor contemporâneo que nunca a tinha ouvido na vida, muito mais tarde? Bem... nenhuma. A frase é a mesma, os direitos de autor é que não.

Deambulações pela escrita



É engraçada a forma como penso quando encontro em alguém. Não porque caricaturize as pessoas em questão, mas porque imagino sempre as suas particularidades, que a tornam especial, descritas por um escritor. As descrições das personagens, bem construídas, que encontramos nos livros são perfeitas em si para mostrar aquilo que passa pela imaginação de quem as faz. E, por vezes, quando me recordo daquela mulher que encontrei sentada num café, sozinha, a ler, ou aquele que corria naquela tarde, pela serra, ao pôr-do-sol, crio na minha mente uma forma esbelta, simples e sincera de os descrever. Não porque sejam especiais para mim, mas porque a forma como eu os imagino é assim que os torna, afinal, todos somos belos e especiais à nossa maneira. Só não temos um escritor no nosso interior que nos possa descrever, porque se tivessemos, seríamos tão perfeitos quanto qualquer personagem alguma vez criada.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

(Re)voltas

Há dias em que toda a gente me parece um empecilho e me dá vontade de mandá-los todos para um certo sítio, sinceramente!

Amigo de verdade



"A true friend cares like a mom, scolds like a dad, teases like a sister, irritates like a brother and loves more than a lover."

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Deslumbramentos




"Milady, é perigoso contemplá-la, 
Quando passa aromática e normal, 
Com seu tipo tão nobre e tão de sala, 
Com seus gestos de neve e de metal. 

Sem que nisso a desgoste ou desenfade, 
Quantas vezes, seguindo-lhe as passadas, 
Eu vejo-a, com real solenidade, 
Ir impondo toilettes complicadas!... 

Em si tudo me atrai como um tesouro: 
O seu ar pensativo e senhoril, 
A sua voz que tem um timbre de ouro 
E o seu nevado e lúcido perfil! 

Ah! Como me estonteia e me fascina... 
E é, na graça distinta do seu porte, 
Como a Moda supérflua e feminina, 
E tão alta e serena como a Morte!... 

Eu ontem encontrei-a, quando vinha, 
Britânica, e fazendo-me assombrar; 
Grande dama fatal, sempre sozinha, 
E com firmeza e música no andar! 

O seu olhar possui, num jogo ardente, 
Um arcanjo e um demônio a iluminá-lo; 
Como um florete, fere agudamente, 
E afaga como o pêlo dum regalo! 

Pois bem. Conserve o gelo por esposo, 
E mostre, se eu beijar-lhe as brancas mãos, 
O modo diplomático e orgulhoso 
Que Ana de Áustria mostrava aos cortesãos. 

E enfim prossiga altiva como a Fama, 
Sem sorrisos, dramática, cortante; 
Que eu procuro fundir na minha chama 
Seu ermo coração, como um brilhante. 

Mas cuidado, milady, não se afoite, 
Que hão de acabar os bárbaros reais; 
E os povos humilhados, pela noite, 
Para a vingança aguçam os punhais. 

E um dia, ó flor do Luxo, nas estradas, 
Sob o cetim do Azul e as andorinhas, 
Eu hei-de ver errar, alucinadas, 
E arrastando farrapos - as rainhas! "

Cesário Verde, in 'O Livro de Cesário Verde'

A Gentil Camponesa



MOTE 


Tu és pura e imaculada, 
Cheia de graça e beleza; 
Tu és a flor minha amada, 
És a gentil camponesa. 


GLOSAS 


És tu que não tens maldade, 
És tu que tudo mereces, 
És, sim, porque desconheces 
As podridões da cidade. 
Vives aí nessa herdade, 
Onde tu foste criada, 
Aí vives desviada 
Deste viver de ilusão: 
És como a rosa em botão, 
Tu és pura e imaculada. 


És tu que ao romper da aurora 
Ouves o cantor alado... 
Vestes-te, tratas do gado 
Que há-de ir tirar água à nora; 
Depois, pelos campos fora, 
É grande a tua pureza, 
Cantando com singeleza, 
O que ainda mais te realça, 
Exposta ao sol e descalça, 
Cheia de graça e beleza. 


Teus lábios nunca pintaste, 
És linda sem tal veneno; 
Toda tu cheiras a feno 
Do campo onde trabalhaste; 
És verdadeiro contraste 
Com a tal flor delicada 
Que só por muito pintada 
Nos poderá parecer bela; 
Mas tu brilhas mais do que ela, 
Tu és a flor minha amada. 


Pois se te tenho na mão, 
Inda assim acho tão pouco, 
Que sinto um desejo louco: 
Guardar-te no coração!... 
As coisas mais belas são 
Como as cria a Natureza, 
E tu tens toda a grandeza 
Dessa beleza que almejo, 
Tens tudo quanto desejo, 
És a gentil camponesa 


António Aleixo, in "Este Livro que Vos Deixo...



segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Definição de inteligência

" Procurando definir inteligência, esta pode ser considerada a capacidade mental de raciocinar logicamente, planear, resolver problemas, abstrair, manipular conceitos (números ou palavras), compreender ideias e linguagens, recordar acontecimentos remotos ou recentes, transformar o abstracto em concreto, analisar e sintetizar formas, assimilar conhecimentos concretos (aprender), enfrentar com sensatez e precisão os problemas e estabelecer prioridades entre um conjunto de situações.
Assemelhando-se a outras capacidades e competências, a definição de inteligência é profundamente influenciada pela sociedade que a define: em diferentes culturas, em diferentes épocas, valorizam-se diferentes competências e capacidades intelectuais." daqui

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

A magia do amor

Sabemos quando amamos alguém, quando ao conhecermos centenas de pessoas só desejamos uma...e por muito tempo. A saudade é triste, mas "mais vale ter amado e perdido do que nunca ter amado" como o disse Shakespeare. Se em quatro anos sempre estiveste comigo, não será certamente num, por muitas pessoas que conheça e por muitas por quem me interesse, que te esquecerei. Amaria voltar a sentir o que sentia quando estávamos juntos. Mas sei que a vida é assim. Espero um dia mais tarde poder reencontrar-te, amigo. E espero um dia mais tarde descobrir que sinto por ti o mesmo que sentia quando te deixei...

Não, estas palavras não são para ninguém. Primeiro porque para quem são ele não irá ler e depois porque quem as lê não compreenderá. É apenas mais uma história de amor...

Pensar é estar doente dos olhos

A ler :
"...Filósofo e provocador.
Ao ler que
"Pensar é estar doente dos olhos",
fica-se a saber a causa
de o Fernando precisar de óculos.
E a supor que serão adereço obrigatório
de todos os filósofos."

aqui, faz-me pensar... eu sou pensadora (o que poderiam de chamar como filosofa amadora) e uso óculos. Portanto....essa indirecta também é para mim, certamente. Logo, mostro-me publicamente ofendida e acredito que se o nosso querido poeta fosse vivo, também não acharia certamente graça à brincadeira. Ora essa, meu caro! Que afronta!

Selo


A MC - Maria capaz teve a gentileza de me oferecer este lindo selo, mas com três condições:

1 - Dizer três factos sobre mim
Tenho cabelo castanho (facto importantíssimo)
Adoro ler
Gosto de ser autodidacta em algumas coisas

2 - Dizer qual dos rapazes da banda One Direction prefiro:
Resposta igual...não conheço nenhum eheh

3 - Passar o selo a três blogues:
Pérola
aNaMartins
Shiine*



quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Afastamento

"Se te faz mal afasta-te." - disse-me uma amiga uma vez

E pronto. Palavras para quê? Não devemos nunca pensar que sabemos aquilo que a outra pessoa sente ou pensa, se ela não nos disser. Por vezes (a maior parte das vezes) afastamo-nos porque nos magoa, as outras, porque não sabemos lidar com a situação.

Bucéfalo e Alexandre


Esta para mim é das histórias mais bonitas da História: a de Alexandre, o Grande e o seu fiel companheiro Bucéfalo.
Conta a história que ninguém conseguia domar aquele garanhão muito menos montá-lo. E no entanto, Alexandre, foi o único que o conseguiu fazer descobrindo o seu ponto fraco: o cavalo tinha medo da própria sombra. Assim conseguiu montá-lo (virando-o para o sol, de forma a encandeá-lo e a impedi-lo ver as sombras) e a partir daí  foram companheiros inseparáveis durante 20 anos, tendo ele participado, juntamente com Alexandre, em muitas batalhas. Mais tarde, veio a morrer por ferimentos e pela idade durante a campanha de Alexandre na Índia. No local da sua morte, o imperador prestou-lhe homenagem fundando a cidade Bucéfala, no actual Paquistão.

(agora já perceberam quem é este cavalinho, anteriormente a encimar o blogue)

Olímpicos e Paralímpicos



Bem, uma coisa é certa: agora vamos aos Jogos Olímpicos e poucas medalhas ganhamos (toda a gente se desanima), chegam os Paralímpicos e trazemos mais que uma para casa (ninguém quer saber!). E acordarmos, an?!

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Toada de Portalegre - completa



"Em Portalegre, cidade 
Do Alto Alentejo, cercada
De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros,
Morei numa casa velha,
Velha, grande, tosca e bela,
À qual quis como se fora
feita para eu morar nela...

Cheia dos maus e bons cheiros
Das casas que têm história,
Cheia da ténue, mas viva, obsidiante memória
De antigas gentes e traças,
Cheia de sol nas vidraças
E de escuro nos recantos,
Cheia de medo e sossego,
De silêncios e de espantos,
- Quis-lhe bem, como se fora
Tão feita ao gosto de outrora
Como ao do meu aconchego. 

Em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De montes e de oliveiras,
Do vento soão queimada,
(Lá vem o vento soão!,
Que enche o sono de pavores,
Faz febre, esfarela os ossos, 
Dói nos peitos sufocados,
E atira aos desesperados
A corda com que se enforcam
Na trave de algum desvão...)
Em Portalegre, dizia,
Cidade onde então sofria
Coisas que terei pudor
De contar seja a quem for, 
Na tal casa tosca e bela
À qual quis como se fora
Feita para eu morar nela,
Tinha, então, 
Por única diversão,
Uma pequena varanda
Diante duma janela.

Toda aberta ao sol que abrasa,
Ao frio que tolhe, gela,
E ao vento que anda, desanda, 
E sarabanda, e ciranda
Derredor da minha casa,
Em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros,
Era uma bela varanda,
Naquela bela janela!

Serras deitadas nas nuvens, 
Vagas e azuis da distância,
Azuis, cinzentas, lilases,
Já roxas quando mais perto,
Campos verdes e amarelos, 
Salpicados de oliveiras,
E ao que o frio, ao vir, despia,
Rasava, unia
Num mesmo ar de deserto
Ou de longínquas geleiras,
Céus que lá em cima, estrelados, 
Boiando em lua, ou fechados
Nos seus turbilhões de trevas,
Pareciam engolir-me
Quando, fitando-os suspenso
De aquele silêncio imenso,
Eu sentia o chão fugir-me,
- Se abriam diante dela,
Daquela
Bela
Varanda
Daquela 
Minha 
Janela,
Em Portalegre, cidade 
Do Alto Alentejo, cercada
De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros,
Na casa em que morei, velha,
Cheia dos maus e bons cheiros
Das casas que têm história, 
Cheia da ténue, mas viva, obsidiante memória
De antigas gentes e traças,
Cheia de sol nas vidraças
E de escuro nos recantos,
Cheia de medo e sossego,
De silêncios e de espantos,
À qual quis como se fora
Tão feita ao meu gosto de outrora
Como ao do meu aconchego...

Ora agora,
Que havia o vento soão
Que enche o sono de pavores,
Faz febre, esfarela os ossos, 
Dói nos peitos sufocados,
E atira aos desesperados
A corda com que se enforcam
Na trave de algum desvão,
Que havia o vento soão
De se lembrar de fazer?
Em Portalegre, dizia,
Cidade onde então sofria
Coisas que terei pudor
De conta seja a quem for,
Que havia o vento soão
De fazer,
Senão trazer
Àquela
Minha
Varanda
Daquela
Minha 
Janela
O testemunho maior
De que Deus
É protector 
Dos seus
Que mais faz sofrer?

Lá num craveiro que eu tinha,
Onde uma cepa cansada
Mal dava cravos sem vida,
Poisou qualquer sementinha
Que o vento que anda, desanda,
E sarabanda, e ciranda,
Achara no ar perdida,
Errando entre terra e céus...,
E, louvado seja Deus!,
Eis que uma flor miudinha
Rompeu, cresceu, recortada,
Furando a cepa cansada
Que dava cravos sem vida
Naquela
Bela
Varanda
Daquela
Bela
Janela
Da tal casa tosca e bela
À qual quis como se fora
Feita para eu morar nela...

Como é que o vento suão
Que enche o sono de pavores,
Faz febre, esfarela os ossos,
Dói nos peitos sufocados,
E atira aos desesperados
A corda com que se enforcam
Na trave de algum desvão,
Me trouxe a mim que, dizia,
Em Portalegre sofria
Coisas que terei pudor
De contar seja a quem for,
Me trouxe a mim essa esmola, 
Esse pedido de paz
Dum Deus que fere... e consola
Com o próprio mal que faz?
Coisas que terei pudor
De contar seja a quem for
Me davam então tal vida
Em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros,
Me davam então tal vida
- Não vivida!, mas morrida
No tédio e no desespero,
No espanto e na solidão - 
Que a corda dos derradeiros
Desejos dos desgraçados
Por noites do vento soão
Já várias vezes tentara
Meus dedos verdes suados...

Senão quando o amor de Deus
Ao vento que anda, desanda,
E sarabanda, e ciranda,
Confia uma sementinha
Perdida entre terra e céus, 
E o vento a traz à varanda
Daquela
Minha
Janela
Da tal casa tosca e bela
À qual quis como se fora
Feita para eu morar nela!

Lá no craveiro que eu tinha,
Onde uma cepa cansada
Mal dava cravos sem vida,
Nasceu essa acaciazinha
Que depois foi transplantada
E cresceu, dom do meu Deus!,
Aos pés lá da estranha casa
Do largo do cemitério
Frente aos ciprestes que em frente
Mostram os céus, 
Como dedos apontados
De gigantes enterrados...

Quem desespera dos homens, 
Se a alma lhe não secou, 
A tudo transfere esperança
Que a humanidade frustrou:
E é capaz de amar as plantas,
De esperar dos animais, 
De humanizar coisas brutas,
E ter criancices tais, 
Tais e tantas!,
Que será bom ter pudor
De as contar seja a quem for.

O amor, a amizade, e quantos
Sonhos de cristal sonhara, 
Bens deste mundo, que o mundo
Me levara, 
De tal maneira me tinham,
Ao fugir-me,
Deixando só, nulo, atónito,
A mim, que tanto esperara
Ser fiel,
E forte,
E firme,
Que não era mais que morte
A vida que então vivia,
Autocadáver...

E era então que sucedia
Que em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros,
Aos pés lá da casa velha
Cheia dos maus e bons cheiros
Das casas que têm história,
Cheia da ténue, mas viva, obsidiante memória
De antigas gentes e traças,
Cheia de sol nas vidraças
E de escuro nos recantos,
Cheia de medo e sossego,
De silêncios e de espantos,
- A minha acácia crescia.

Vento soão!, obrigado
Pela doce companhia
Que em teu hálito empestado,
Sem eu sonhar, me chegava!
E a cada raminho novo
Que a tenra acácia deitava,
Será loucura!..., mas era
Uma alegria
Na longa e negra apatia
Daquela miséria extrema
Em que eu vivia,
E vivera,
Como se fizera um poema, 
Ou se um filho me nascera."

José Régio

Parvoeiras (daquelas que toda a gente faz, não sou só eu)

Por vezes, dou por mim a fazer daquelas coisas parvas que habitualmente todos fazemos, mas só mais tarde tomamos consciência  e, quando tomamos, realmente chegamos à conclusão que é parvo. Por exemplo: olhar para o telemóvel, ver uma mensagem recebida e responder-lhe mentalmente. Tipo:
mensagem: "Amanhã vais sair?"
resposta mental (e traduzida pelo aparelho fonético): "Yap! Amanhã devo sair com a Marta"

..... 5, 4, 3, 2, 1 ....e tomamos consciência que isto é parvo!
Depois olhamos à volta e damos pelas pessoas a olharem para nós com aquela cara de "Meu Deus, esta miúda é uma atrasada mental!" e lá tentamos disfarçar dizendo as horas em alto ou balbuciando qualquer coisa impossível de ouvir só para não darmos a certeza às dúvidas das pessoas em questão relativamente à nossa saúde mental.

Depois não admira que haja sms sem resposta...

Como é que se esquece alguém que se ama? - excerto Miguel Esteves Cardoso

[como neste momento isto se passa comigo:]

"Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que se faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa - como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está?


As pessoas têm de morrer; os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar. Sim, mas como se faz? Como se esquece? Devagar. É preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. Podem pôr-se processos e acções de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas! É preciso aguentar. Já ninguém está para isso, mas é preciso aguentar. A primeira parte de qualquer cura é aceitar-se que se está doente. É preciso paciência. O pior é que vivemos tempos imediatos em que já ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta a dor. De cabeça ou do coração. Ninguém aguenta estar triste. Ninguém aguenta estar sozinho. Tomam-se conselhos e comprimidos. Procuram-se escapes e alternativas. Mas a tristeza só há-de passar entristecendo-se. Não se pode esquecer alguém antes de terminar de lembrá-lo. Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na alma. A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada. É uma dor que é preciso aceitar, primeiro, aceitar.

É preciso aceitar esta mágoa esta moinha, que nos despedaça o coração e que nos mói mesmo e que nos dá cabo do juízo. É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução. Quantos problemas do mundo seriam menos pesados se tivessem apenas o peso que têm em si, isto é, se os livrássemos da carga que lhes damos, aceitando que não têm solução.
Não adianta fugir com o rabo à seringa. Muitas vezes nem há seringa. Nem injecção. Nem remédio. Nem conhecimento certo da doença de que se padece. Muitas vezes só existe a agulha.
Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado.
O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar. Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar."

Miguel Esteves Cardoso, in Último Volume.

Pensamento (muito) estúpido ...

Lá por Fernando Pessoa já ter morrido não quer dizer que não possamos ser amigos...




(a partir daqui, sinto que a minha vida no blog, nunca mais irá ser a mesma)

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Cesário verde




Naquele pic-nic de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico,
um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o Sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão-de-ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas!

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Das coisas divertidas da vida...

Situação engraçada (se nós não nos encontrarmos nela):

Um casal de amigos apaixonados encontram-se numa situação (dita aleatoriamente) em que, por exemplo, ela vai a uma festa::

Ela: Então vais logo à festa [gostava muito que ele viesse]
Ele: Não sei, queres que vá? [gostava muito de ir]
Ela: Se quiseres vem...
Ele: Hum... [então deixa, acho que fico por casa]

A piada está que a vontade dela era a presença dele na festa, mas não teve coragem para o admitir, ele queria ir e também não teve coragem para o fazer. E quantas vezes isto não vos aconteceu já?.... Quantas vezes não ouviram o/a vosso/a amigo/a queixar-se do mesmo?
Resumindo: ninguém adivinha que vocês gostam da outra pessoa, se não lho disserem ou não derem a entender! Algumas vezes o sentimento é sincero e recíproco (pode ser difícil de acreditar, mas é verdade)... há que saber quando é assim e aproveitar, se não, é uma oportunidade perdida.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

...

(and I share it because is cool!!..)

Para recordar...


Peggy Lee - Why don't you do right



Peggy Lee - Fever



Pink Martini - Amado mio 

e para terminar....


Nancy Sinatra - This boots are made for walkin'

A cultura está cara

Enquanto vagueava, como habitualmente faço, pela Internet em busca dos mais diversos assuntos que me vêm à mente, encontrei vários cursos que me interessaram, em diferentes Universidades pelo país. Ao aprofundar mais o meu interesse por cada um, não pude deixar de reparar nos enormes preços de propinas, inscrições e candidaturas que pedem, e isto fez-me pensar que, de facto, só quem tem cultura (este tipo de acesso) é quem tem dinheiro para a pagar.
No entanto, também me fez recordar (nunca mais me esqueci desta frase) uma parte do programa do "Você na tv", há uns anos, em que a Lili Caneças se gabava de na sua juventude entrar nas festas porque, dizia ela, "quem entrava ou era rica ou era linda" (claro está que não era a primeira hipótese). Ouvi a primeira vez e simplesmente não me passou pela mente nada de especial, era um facto que ela relatava e eu, como óbvio, concordava, mas sem experiência própria. Mais tarde, ao assistir a um programa na tv (aquele que já mencionei, em que consiste numa pessoa rica - geralmente é um/a jovem mimado/a - que quer realizar uma festa com gente de elite num curto espaço de tempo, sem olhar a meios monetários) recordei essa fantástica frase e pensei para mim mesma: "agora já compreendi porque é que OU são ricas OU são bonitas" - lá raras vezes encontram-se alguns indivíduos "dois em um".
E tudo isto faz-me transcrever a frase não para as festas, mas sim para as universidades, afirmando: "quem entra nelas, ou é rico ou é inteligente" e retomo: lá poucas vezes encontramos alguns indivíduos que têm  a maravilhosa condição de serem ricos e inteligentes (e então se forem bonitos? Ui!...).

Can you handle a broken heart?

Há dias em que sinto o coração a chorar por dentro...Não é aquele choro que nos molha a cara e nos deixa os lábios a saberem a salgado, é aquele que é complexo, que nem mil descrições, mil desenhos ou mil imagens seriam necessários para o conseguir explicar. É aquele que nos deixa pesados, vazios sem sabermos porquê. - Não sejamos hipócritas, sabemos sim a razão, só não a queremos admitir! -.
Além desta tristeza que vem não sei de onde, ainda sinto saudade... de quê ou de quem, não sei.

sábado, 28 de julho de 2012

Poema inédito de José Régio - Canção de Portalegre


(fotografia da minha autoria - Sé e Castelo ao pôr-do-sol)

"De Portalegre cantando,
Meu canto é doce e é amargo:
Já sinto os olhos turvando,
Já sinto o peito mais largo ...

Ai torres da velha Sé,
Ai muros do burgo estreito!
Sempre vos rezo, com fé.
Se me levanto ou me deito 

Por onde quer que eu andar,
Vá eu lá por onde for,
Comigo te hei-de levar, 
Contigo me hei-de ficar,
Minha terra, - meu amor ... 

O céu das tardes compridas
Parece que vem baixando;
E se as torres são mãos erguidas
Que quase lhe estão chegando!

Ao longe se perde o olhar
Nas névoas dos horizontes ...
E a terra parece o mar,
Parecem ondas os montes.

Por onde quer que eu andar,
Vá eu lá por onde for, 
Comigo te hei-de levar,
Contigo me hei-de ficar,
Minha terra, - meu amor ...

Tem cada ruela estreita
Casas pobres, e opulentas
Meu gosto nenhuma enjeita:
São todas minhas parentas ...

Olhei da Serra a cidade,
Tão branca, estreita e comprida!
Fez-me alegria e saudade,
- Assim de noiva vestida ...

Por onde quer que eu andar,
Vá eu lá por onde for,
Comigo te hei-de levar, 
Contigo me hei-de ficar,
Minha terra, -meu amor ..."

in "Rabeca" - 21 de Novembro de 1952

(Portalegre vista da Serra - fotografia da minha autoria


Espero que gostem da partilha deste poema. O facto de ter sido publicado em jornais e não em livros faz com que não seja muito conhecido e, a meu ver, é demasiado lindo para que isso se possa permitir. As fotografias foram tiradas por mim e servem para ilustrar (ou pelo menos tentar) aquilo que o poeta fala.